Conheça e aprecie três obras de grande qualidade que temos do mestre Roberto Chichorro.

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“O pintor queria que se visse o que está para além delas; as violas, os animais, as luas, os músicos, as flores, a luz e as sombras, mas elas ofuscavam tudo; assomavam à pele da tela, ganhavam contorno, dimensão, volume e, até, vida. Desesperavam o artista quando queria dar ordem ao seu mundo, mas ficava, também ele, refém dos seus encantos.

O pintor morava no alto de uma torre, para onde subia e donde descia numa cadeirinha mágica que rolava ao longo de um corrimão. Do alto dessa torre via o mundo. Enternecia-se com os meninos brincando e chegavam-lhe lembranças da sua infância, com a mufanagem solta na correria, lançando papagaios de papel nos amanheceres suburbanos. Nesse tempo, construíra a impressão de que as cores têm cheiro e sabor e de que tudo começa com elas.

O pintor descia ao mundo sentado na sua cadeirinha; não é que estivesse impedido de o fazer pelo seu passo, mas porque o engenho o fazia sonhar, tal como um baloiço faz às crianças. De seguida, caminhava pelas ruas e como um peregrino absorvia o mundo – era um sensacionista a admirar o espectáculo da vida. Parava nos largos e nas praças, nos mercados e onde houvesse gente.

Destarte, o pintor via o que o rodeava e pensava no muito que havia para pintar. Regressava, então, aos quadros, às telas brancas poisadas sobre os cavaletes que aguardavam as formas, os rabiscos e as cores.”

Excerto do conto “O PINTOR QUE GOSTAVA DE PÁSSAROS”
Escritor António Tavares

Roberto Chichorro

Artista plástico moçambicano, de nome completo Roberto Carneiro de Alcáçovas de Sousa Chichorro, nascido a 19 de setembro de 1941, na cidade de Maputo. Apaixonado por desenho, tirou o Curso Industrial de Construção Civil, embora a sua primeira opção fosse Arquitetura, curso que só poderia estudar se fosse para Portugal. Desempenhou várias funções como, por exemplo, desenhador de arquitetura e ilustrador de livros. Para além do trabalho, dedicava-se à pintura e fez a sua primeira exposição em 1967, mas só em 1980 se dedicou inteiramente à arte. No ano de 1982 recebeu uma bolsa do governo espanhol, tendo trabalhado em cerâmica no Taller Azul e em zincogravura com Óscar Manezzi, em Madrid. Regressou a Moçambique em 1985, mas por pouco tempo já que recebe uma bolsa da Cooperação Portuguesa em Lisboa. Desde então, ficou a viver em Portugal, dedicando-se inteiramente à pintura, que expõe, coletiva ou individualmente, em várias galerias. As suas obras encontram-se espalhadas em diversas instituições, como o Museu de Arte Contemporânea em Lisboa e o Museu de Arte Contemporânea de Luanda. Ilustrou vários livros, com destaque para o poeta Craveirinha.